terça-feira, 27 de junho de 2017

CINE-NOSTALGIA (67)

«A VACA E O PRISIONEIRO» («La Vache et le Prisonnier») é uma das comédias do cinema francês mais vistas e apreciadas da segunda metade do século XX. Baseada numa história autêntica, teve realização de Henri Verneuil (1959) e a participação artística de Fernandel, René Havard, Alain Rémy, Bernard Musson e Inge Schoner. Esta película (com distribuição da famosa e pioneira companhia Pathé) foi filmada a preto e branco e tem uma duração de 119 minutos. A história contada inspirou-se em factos ocorridos na Alemanha e em França, durante o 2º conflito generalizado. Sinopse : um prisioneiro de guerra francês, Charles Bailly, é obrigado a trabalhar nos campos de uma quinta, cujo proprietário se encontra a combater na frente russa. E estabelece boas relações com as mulheres da dita propriedade, que vão fechar os olhos quando ele decide evadir-se, à luz do dia, usando o seu uniforme de cativo (com as letras KG em evidência nas costas do casaco) na companhia de Margarida, uma pachorrenta vaca leiteira. A travessia do território alemão é cheia de peripécias, mas Bailly logra alcançar a velha Gália e a tão desejada liberdade. Ali, quando já se julgava a salvo, o ex-prisioneiro é perseguido por dois polícias e, para escapar a um rotineiro controlo de identidade, acaba por tomar um comboio que o leva... de retorno a território inimigo. De onde ele será dispensado, dois anos mais tarde, no final da guerra, como os demais prisioneiros. Fernandel teve aqui um papel de excepção e pode dizer-se que esta sua película -que combina apartes de humor hilariante com cenas algo dramáticas- se conta entre as mais populares de todo o seu reportório. Refira-se, ainda, a propósito desta fita e como mera curiosidade, que «A VACA E O PRISIONEIRO» inspirou um outro cineasta francês, Claude Autant-Lara, que a quis rodar com o concurso do actor Bourvil no papel de Charles Bailly. A disputa entre os dois realizadores envenenou-se e foi levada a tribunal para que um juiz estabelecesse quem teria legalmente o direito de a rodar. Verneuil ganhou a questão e fez deste seu trabalho uma referência do cinema clássico francês.

BARBÁRIE SEM NOME

Aqui há tempos (poucos dias) gerou-se uma polémica no nosso cantinho à beira mar plantado à volta de uma curiosa  'tradição'; que consiste, no decorrer das festas de determinada vilória, em brincar com um bovino, a cujos cornos se deita deliberadamente o fogo. Pedindo os locais para que se respeite uma prática que, ao que parece, já vem de longe e que tem sido, até aqui, intocável. Assisti também a uma emissão televisiva sobre o assunto, que teve participação de uma senhora, membro de uma associação de defesa dos animais, que apresentou as suas razões sobre o caso. E não posso estar mais de acordo com ela. Se 'isto' é tradição, não deveria sê-lo; porque se trata de um acto bárbaro, que só pode tirar dignidade a quem o pratica e ao país que o consente. Basta (uma vez por todas) de torturar os animais. -Que não são coisas e que tal como nós, têm sistema nervoso e sofrem. Haja vergonha.

QUARTZO ROSA

Não ! -Não se trata de pedras preciosas, mas de simples pedaços de quartzo cor-de-rosa, na sua forma bruta ou polida. Os primeiros cristais desta bonita pedra ornamental foram descobertos no estado norte-americano do Maine (costa atlântica), mas um dos maiores produtores é Minas Gerais (Brasil), de onde provém grande parte das pedras comercializadas no mundo. A cor rosa desta espécie de quartzo (que geralmente é branco) deve-se, no dizer dos entendidos, a uma pequena quantidade de fosfato que entra na sua composição. Em função da sua transparência, esta gema (trabalhada) pode atingir preços mais ou menos elevados. O quartzo rosa (muito procurado pelos coleccionadores de minerais) é utilizado na realização de adornos vendidos a preços ainda assim abordáveis; que nada têm a ver, naturalmente, com o valor atingido pelas jóias enfeitadas com pedras preciosas e semi-preciosas.

VALE DO DOURO, VALE DE OURO

Esta imagem mostra-nos o rio Douro correndo em território português. A riqueza gerada pelos vinhos produzidos neste generoso vale (portos e de mesa, que são os melhores de Portugal) é -desde há séculos- um dos grandes trunfos da vitivinicultura nacional. Esses preciosos néctares são exportados para o mundo inteiro e têm recebido prestigiosos galardões; que atestam da sua qualidade ímpar.

COISAS E LOISAS SOBRE A GUERRA DE SECESSÃO

A Guerra Civil Americana (também chamada Guerra de Secessão) travou-se -em território dos actuais EUA entre 1861 e 1865. As origens desse conflito fratricida (fala-se entre 600 000 e 1 milhão de mortos) assentaram, em parte, nas diferenças de modo de vida de nortistas e de sulistas e na utilização, por parte  destes últimos, de mão-de-obra escrava oriunda da África negra; que era o sustentáculo da economia de uma região essencialmente agrícola. Isto, num tempo em que a escravatura já havia sido abolida -na prática- do norte industrializado do país. Mas a gota que fez transbordar a taça foi quando, de maneira unilateral, os meridionais optaram (como, aliás, a Constituição dos Estados Unidos lhes permitiam) pela separação política e fundaram a Confederação dos Estados do Sul. Essa situação tornou-se insuportável para o presidente (recentemente eleito) Abraão Lincoln, que mobilizou tropas e entrou em guerra aberta contra o poder 'rebelde'. Estas palavras são apenas um necessário preâmbulo para comentar a imagem anexada e dizer que o conflito em questão também teve uma componente naval, com renhidos combates travados no oceano Atlântico e nos rios norte-americanos. A imagem mostra uma canhoneira unionista alvejando uma unidade inimiga, que se desloca na margem de um rio e que, também ela, está equipada com peças de artilharia. Foi aliás durante esta mortífera guerra, que ocorreram os primeiros combates entre navios couraçados e que foram 'estreados' submarinos e outras armas de tecnologia revolucionária. Mas a guerra seria perdida pelos Confederados em terra, no decorrer de batalhas sangrentas em que a superioridade numérica e o poderio industrial dos Nortistas representaram um papel preponderante... (Clicar com o rato na imagem para a ampliar substancialmente).

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O NOSSO MUNDO É BELO (115) : QUÉNIA

VIVA O COMENDADOR !

O Alto Alentejo tornou-se, graças à veia empreendedora do comendador Rui Nabeiro (de Campo Maior) e ao labor dos seus colaboradores (técnicos, operários e agentes comerciais ), um dos maiores torrefactores e vendedores de café do país. Coisa para a qual, à primeira vista, não estava, como diz o outro, 'escrito nos livros'. É nossa opinião que a minha terra (no sentido largo do termo) muito deve àquele nosso industrial. Que para além de ter substancialmente contribuído para o desenvolvimento da região raiana, também é um homem de coração; que muito tem feito pelo bem-estar dos seus conterrâneos. Pena é que homens como ele -com valor(es) e com coração- sejam tão raros neste país que é o nosso.

COLECCIONISMO


A filatelia de temática ferroviária é bastante rica e didáctica. Aqui fica o aviso para aqueles (sobretudo jovens) que amam os comboios e a sua já secular e apaixonante História; e que, eventualmente, gostariam de começar uma colecção de selos. Temática tão interessante como o é, aliás, a odisseia dos transportes públicas.  No seu conjunto ou separada por variantes. Que todos elas são contempladas e consagradas pelos estampilhas de correio dos mais diversos países do mundo. A filatelia é, realmente, um universo que combina cultura e lazer de maneira perfeita e um bom e profícuo passatempo. Pena é que tenha sido substituído nas preferências da juventude (mas não só) pela oferta (por vezes vazia e instantânea) dos jogos de tabletes, de 'i-phones' e assimilados... Hoje a filatelia é, infelizmente, qualquer coisa de feio e de antiquado. Como é feio e fora de moda ler, gostar de ver um filme dos anos 50 do passado século, fazer palavras.cruzadas, etc. Eu confesso que tenho pena de quem está a perder tudo isso.

AS ESTÁTUAS DA PONTE VERDE


Estes grupos escultóricos enfeitam as entradas da Ponte Verde, em Vilnius, capital da República da Lituânia. Pertencem à escola dita 'do Realismo Socialista', que floresceu por todo o território da União Soviética. Foram esculpidos por artistas locais e ali colocados, em 1952, ainda no tempo em que aquele país báltico fazia parte da extinta U. R. S. S.. A Ponte Verde tem 103 metros de comprimento e une as duas margens do rio Neris, que atravessa aquela cidade do norte da Europa. Trata-se, pois, de uma obra de engenharia de modesta envergadura, mas que se tornou famosa pelas suas estátuas, que se intitulam, respectivamente (e de cima para baixo), «A Agricultura», «Indústria e Construção», «Educação Nova» e «Guardiães da Paz».

ARANHA-ESPELHO

A aranha-espelho, de seu nome científico 'Thwaitesia argentiopunctata', distingue-se pelas cores extraordinárias reflectidas pelas placas prateadas que cobrem o seu mínúsculo abdómen; que raramente excede os 3 milímetros de comprimento. Esta espécie raríssima pode encontrar-se em Singapura e na Austrália, mas também nalguns outros países do Extremo Oriente. É, porventura e de entre todos os aracnídeos, um dos exemplares mais bonitos.

domingo, 25 de junho de 2017

TURISMO EM MOÇAMBIQUE


Este velho cartaz de promoção turística foi editado e distribuído pelas autoridades competentes da então 'província ultramarina' de Moçambique. E parece-me que o público visado seria a população branca e abastada da vizinha África do Sul, o país do 'Apartheid'. Moçambique tinha (e continua a ter) atractivos de peso para chamar a si as atenções do turismo internacional. Mas para que isso resulte nos dias de hoje, o país necessita de ter uma maior estabilidade social, mais segurança e mais confiança no futuro. É tudo o que eu desejo a esta nação lusófona e ao seu povo. Que merecem a paz e a prosperidade, depois dos sofrimentos causados por uma cruel guerra colonial e por uma não menos atroz guerra civil.

COWBOY


Hopalong Cassidy foi um dos mais populares justiceiros do cinema western, sobretudo dos famosos 'serials' que se projectavam na primeira parte das chamadas sessões duplas. -Mas quem são aqueles  que -com menos de 70/75 anos de idade- ainda se lembram deste cowboy do celulóide ?

A ESCOLA DAS PRIMEIRAS LETRAS

A Escola Primária do meu tempo : interior de uma sala de aulas dos anos 40 (?) do passado século. O mestre era escutado e respeitado. Até porque se o não fosse, dispunha de meios para fazer valer a sua autoridade. Com reguadas de criar bicho, traulitadas com o ponteiro, etc. Nas paredes laterais e do fundo estão afixadas estampas com as famosas 'Lições de Salazar', o rei sem trono do país. E junto à parede para a qual os rapazes (e eventualmente raparigas) estavam virados, a modesta secretária do professor, o quadro e alguns mapas de Portugal e das colónias. Aos quais se sobrepunham, obviamente, o crucifixo e os retratos do ditador e do marechal Carmona. A vida escolar era de um cinzentismo atroz; mas, ainda assim, os cachopos aprendiam o programa. A bem ou a mal, mas aprendiam. Desse tempo, só tenho saudades da minha mocidade que, naturalmente, há muito se esvaiu...

GOLEADOR

Na Taça das Confederações, agora a decorrer na Rússia, Cristiano Ronaldo marcou 3 golos, um por cada 'match' já disputado pela selecção nacional; que acaba de arredar a sua congénere da Nova Zelândia, ao impor-lhe o severo resultado de 4-0. Não estou a gostar nada desta competição, que está a usar jogadores desgastados e que pouco têm a dar em matéria de esforço físico. Acho que toda aquela gente já deveria estar de férias, a estafar os milhões que lhes pagam. Para que cheguem frescos e com a moral em alta, dentro de pouco mais de um mês, aos respectivos campeonatos. Mas isto é, somente e apenas, a minha opinião... A foto que ilustra estas linhas é a do jornal desportivo francês «L'Équipe» do dia seguinte à derrota imposta pelo (ir)Real Madrid à Juventus. O herói da jornada não poderia deixar de ser o supracitado. Que se está a afirmar como um dos maiores goleadores da História do Futebol e a tornar-se um ídolo de dimensão universal.

FILATELIA E AVIAÇÃO MILITAR


A administração postal francesa consagrou este selo (imagem de topo) à formação acrobática existente no seio da força aérea gaulesa : a 'Patrouille de France'. Que, actualmente, opera aviões Alpha-Jet idênticos aos que a FAP (Força Aérea Portuguesa) tem estacionados na B. A. nº 11, em Beja. De concepção e fabrico franco-alemão (Dassault-Dornier), estes jactos são utilizados, essencialmente, na formação de pilotos militares, mas podem facilmente ser armados e utilizados em operações de guerra; em missões de apoio táctico e outras. O primeiro voo de um protótipo Alpha-Jet ocorreu no mês de Outubro de 1973. Sendo, depois dessa data, construídos 480 unidades desse avião bilugar e sub-sónico (1 000 km/h). Os aviões da FAP pertenceram, anteriormente, à 'Luftwaffe'. Na foto inferior podem observar-se 2 aparelhos desse tipo ostentando as cores da famosa formação de voo acrobático 'Asas de Portugal'.

sábado, 24 de junho de 2017

VINHOS DE MARSALA

Caves onde se conservam os vinhos de Marsala. Que são, desde há séculos, dos mais generosos da Sicília, de Itália e de toda a região mediterrânica.

ESTÓRIAS CURIOSAS DA NOSSA HISTÓRIA (1)


O DESAIRE DE BADAJOZ : FERIDO NUMA PERNA, D. AFONSO HENRIQUES É APRISIONADO POR FERNANDO II DE LEÃO

Sabe-se, hoje, que o célebre bandoleiro Geraldo Geraldes -alcunhado «O Sem Pavor»- foi um agente provocador do nosso primeiro rei. Com efeito, o ardiloso conquistador da cidade de Évora mantinha relações secretas com D. Afonso Henriques, que o encorajava (pagando-lhe) a mover acções militares irregulares em certas regiões da Península ocupadas pelos árabes e sobre as quais os reis vizinhos de Leão e de Castela dispunham (graças a tratados firmados) do direito exclusivo de conquista.
Nessas circunstâncias, não é, pois, de admirar que Geraldo, o famoso cavaleiro-vilão, tenha beneficiado, em Portugal, da maior das impunidades. Pudera ! Geraldo Geraldes guardava para si e para os seus homens o produto das pilhagens, mas entregava as praças e castelos de que se ia apoderando a el-rei de Portugal. Que, depois, publicamente, fingia admoestar o mercenário e perdoar-lhe as suas tropelias, sem, contudo, devolver aos lesados as terras e bens assim conquistados.
Protegido dessa curiosa maneira, o «Sem Pavor» chegou a internar-se profundamente em território sarraceno, muito para lá da actual raia alentejana, e a levar a guerra a Trujillo ou a Badajoz, praças particularmente apetecidas por D. Afonso Henriques. Depois de ter tomado a primeira dessas praças em 1165, Geraldo Geraldes montou um apertado assédio a Badajoz, acabando por investi-la com sucesso, em 1169. Inesperadamente, o ladino e arrojado Geraldes foi apoiado nesta última acção de guerra contra os mouros de Badajoz pelas tropas reais e pelo próprio soberano português, que, encontrando-se, à época, em conflito aberto com seu genro, Fernando II de Leão, nem sequer tentou disfarçar, dessa vez, o irrespeito que lhe merecia a letra dos tratados.
Pouco depois da sua entrada em Badajoz e da brilhante vitória alcançada contra a respectiva guarnição muçulmana, os Portugueses foram surpreendidos pela brusca e inoportuna chegada das hostes leonesas diante da cidade ribeirinha do Guadiana. Hostes que a marchas forçadas para ali haviam convergido, logo que Fernando II tomou conhecimento das acções bélicas do seu irrequieto sogro em terras cuja posse ele, muito legitimamente, reivindicava.
Tendo, assim, passado da incómoda situação de triunfadores à de sitiados e perante a desproporção das forças em presença, que lhes era francamente desfavorável, D. Afonso I de Portugal, Geraldo Geraldes e os seus cavaleiros resolveram renunciar temporariamente à posse da praça e, ao mesmo tempo, sair airosamente da aventura. Nesse transe, os Portugueses evacuaram a cidadela de Badajoz, onde se encontravam cercados, e irromperam num tropel desenfreado pelo meio dos leoneses, procurando a salvação na fuga. Foi, pois, durante essa retirada precipitada que D. Afonso Henriques embateu violentamente com uma perna no ferrolho de uma das portas da fortificação e que, já em campo aberto, se foi estatelar numa seara de centeio. Ali foi socorrido, não pelos seus companheiros, que na confusão da fuga nem sequer se aperceberam do infausto acontecimento, mas pelos soldados inimigos, que constataram que el-rei de Portugal havia fracturado uma perna e, naturalmente, o aprisionaram.
Parece que ao ver-se capturado D. Afonso Henriques, o temível 'Ibn Errik' -pavor de toda a moirama- chorou como uma criança. De raiva e de impotência, sem dúvida. E que suplicou insistentemente a seu genro a graça de o libertar e mandar de volta às suas terras, mediante a entrega imediata de todas as praças e castelos que ele, rei de Portugal, havia conquistado à revelia da assinatura dos tratados estabelecidos entre as duas partes.
Rezam as crónicas que Fernando II se deixou comover pelas súplicas do seu encanecido sogro (que já contava, nessa época, a respeitável idade de 68 anos) e que, magnânimo, se 'contentou' com a devolução de 25 cidades, vilas e fortalezas anteriormente conquistadas pelos Portugueses aos árabes e a cuja posse o rei de Leão se julgava legitimamente com direito, como já fizemos menção. D. Afonso (que esteve detido pelo genro cerca de 2 meses) teve de entregar, igualmente, ao seu rival a cidade galega de Tui e territórios adjacentes e remeter-lhe, ainda, 20 preciosos cavalos de batalha e 15 azémolas carregadas com 3 000 kg de ouro ! O preço pago ao monarca leonês pelo resgate do Fundador da Nacionalidade foi, apesar das aparências, bastante leve, se comparado àquilo que, naquele tempo, se exigia em semelhantes circunstâncias.
Abrimos aqui um parêntese para informar os leitores impressionados pela grande quantidade de ouro vertido por D. Afonso I ao seu captor, que o rei de Portugal era um homem rico; e que, tal como os outros monarcas da sua época, alimentava o tesouro real com o produto dos saques das cidades e vilas que conquistava, com o ouro (moeda universal do tempo) dos resgates dos cativos abastados, com os impostos lançados sobre os concelhos, com o dinheiro proveniente de portagens, rendas, tributos, vendas de privilégios, etc. Além disso, o rei de Portugal tirava chorudos proventos das vastas e úberas terras de lavoura que possuía e que produziam excedentes de bens alimentares essenciais, nomeadamente cereais.
Prosseguimos, dizendo que, depois do vexante e improfíquo desastre de Badajoz, o fundador da dinastia de Borgonha nunca mais foi o mesmo homem. Ao que parece, o osso quebrado (provavelmento um fémur)  nunca se soldou convenientemente o que obrigou o rei a coxear e a sofrer desse aleijão para o resto da sua vida. D. Afonso Henriques -excepcional homem de acção- também nunca mais pôde montar a cavalo e esse facto frustrou-o, ensombrando-lhe a existência. Testemunhas coevas referiram que, na sequência do acidente sofrido em Badajoz, o rei, acabrunhado, passava horas a fio num cadeirão. E que quando necessitava absolutamente de se deslocar, o fazia ao colo de criados ou era transportado numa improvisada liteira. Situação insuportável, com toda a certeza, para quem, pouco tempo antes -de montante em punho- ainda passeava a sua aura de invencibilidade pelos campos de batalha do ocidente ibérico.
Apesar do dislate de Badajoz e das suas funestas consequências para o Reino e para a saúde e prestígio de D. Afonso Henriques, o soberano ainda sobreviveu (contrariamente àquilo que prognosticaram alguns dos seus contemporâneos) uma quinzena de anos. A sua quase lendária força anímica acabou por sobrepor-se, pouco a pouco, aos problemas de ordem física e psicológica gerados pela sua forçada inacção. O primeiro rei de Portugal viria a falecer em Coimbra, a 6 de Dezembro de 1185, indo a enterrar -por sua expressa vontade- no mosteiro de Santa Cruz daquela cidade. Antes, porém, de deixar este vale de lágrimas, o «Conquistador» ainda teve a ocasião de experimentar dois momentos de intensa alegria : o primeiro, quando pôde comprovar que o seu filho primogénito e herdeiro da coroa -o príncipe D. Sancho- lhe seguia as pisadas, revelando-se um destemido guerreiro e um político avisado, preocupado com a dilatação do território nacional e com a boa administração do Reino. O segundo momento de grande felicidade, surgiu-lhe quase no fim da vida, quando D. Afonso viu, enfim, reconhecida por Roma a sua dignidade real. Com efeito, pela bula 'Manifestis Probatum', datada de 23 de Maio de 1179, o Papa Alexandre III outorgou-lhe, oficialmente, o título de rei dos Portugueses. Título ao qual D. Afonso Henriques já fazia jus, desde aquele memorável ano de 1143, em que o imperador de Leão e Castela se viu constrangido a renunciar à sua suserania sobre o Condado Portucalense.

(MMS)


O cavaleiro representado neste selo comemorativo da conquista de Évora aos mouros é, certamente, o famoso Geraldo Geraldes, companheiro de armas do nosso primeiro rei.
A imagem de topo mostra a estátua que foi erguida, em Guimarães, a D. Afonso Henriques; que, segundo a tradição, terá nascido naquela cidade do Minho.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

ESTRADAS DA MORTE

Na Estrada Nacional EN 236-1, que atravessa a região de Pedrógão Grande, pereceram -durante os violentos incêndios desta semana trágica- nada menos do que 47 pessoas : homens, mulheres e crianças. Pergunta-se : -Quem as mandou para ali e as precipitou para uma morte atroz ? -Ninguém sabe, ninguém diz... E o mais certo é que, como de todas as outras vezes e apesar da magnitude do drama que assolou aquela região, a culpa morrerá solteira. Eu não sei, muito sinceramente, como resolver o problema continuado dos fogos florestais no nosso país, O que sei é que -e porque esta situação dura há décadas e décadas, sem que se encontre uma solução para parar o flagelo das chamas- deve haver -a nível de responsáveis- muito desleixo, muita incompetência e muito interesse escondido. Porque se isso não fosse verdade, os fogos de Verão não teriam, ano após ano, consequências tão dramáticas, tão mortíferas. Para terminar este meu grito de revolta (que é, estou certo, o de muitos outros Portugueses) quero deixar um testemunho : aqui há uma dúzia de anos atrás, um medonho incêndio reduziu a cinzas grande parte do património florestal do meu concelho. -Sabem qual foi a resposta de quem deveria zelar pela sobrevivência das pessoas e por tomar medidas para que tal catástrofe não se repetisse ? -Eu digo : foi plantar à volta da minha aldeia e de outras da minha região, milhares e milhares de eucaliptos. Que agora se estendem por centenas de hectares, ocupando o terreno até 2 escassos metros das vias de circulação. Das quais, em caso de problema similar ao que matou 64 pessoas no Pedrógão e transformou as ditas vias em 'estradas da morte', ninguém poderá escapar ileso.

GRANDE SENHORA, GRANDE ARTISTA

Graça Morais, artista transmontana, é uma das grandes referências da pintura portuguesa contemporânea. E é também uma mulher preocupada com a vida das pessoas e com o destino do mundo; que, na sua opinião, se transfigura com a automatização das sociedades e a robotização dos indivíduos. Vi-a e ouvi-a no decorrer de uma entrevista que deu ao jornalista Júlio Magalhães do Porto Canal. E gostei de escutar a senhora; que, durante largos minutos, falou do seu trabalho, da sua obra, da sua aldeia e de muitas outras coisas mais que deveriam preocupar o cidadão comum. Que ela não é. Soube, com alguma surpresa, confesso, que partilha a sua vida com outro grande artista do nosso tempo : com o músico Pedro Caldeira Cabral. Que sejam felizes.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

ÍDOLOS ESQUECIDOS


Faia, de seu verdadeiro nome João Júlio de Almeida e Silva, nasceu no dia 1º de Outubro de 1932, no Barreiro, e foi, sem dúvida, um dos melhores jogadores de futebol que despontou nesse autêntico viveiro de talentos que foi, outrora, a apelidada 'Vila Operária'. Começou a sua carreira desportiva bastante cedo e, em 1947 passou a alinhar nas equipas principais do Futebol Clube Barreirense. Tendo disputado, ao serviço dos alvi-rubros, 152 jogos de 1ª Divisão e marcado 76 golos. Mais tarde foi seduzido por uma oferta emanando da Académica de Coimbra, onde perfez 45 desafios e marcou 18 vezes. A sua saída do Barreirense (por decisão intempestiva e unilateral) não caiu bem no goto dos adeptos do seu primeiro clube e eu lembro-me muito bem de ele ter sido alvo, nessa ocasião, de apupos e insultos. Que, passados tantos anos, todos queremos esquecer. Ainda envergou (por 2 vezes) as cores do Sporting, onde não foi feliz, e do Grupo Desportivo da CUF (um dos outros clubes de elite da sua terra natal), onde participou em 54 partidas oficiais e onde averbou 20 tentos. Também, e por duas vezes, vestiu a camisola da selecção B. Depois, em tempo próprio, abandonou a actividade desportiva para gozar da reforma. O tempo foi passando e, como a glória é qualquer coisa de efémero, já pouca gente (que não do Barreiro) se recordará dele dentro dos estádios de futebol. Que, lembro, eram pelados, como os saudosos e tantas vezes visitados campos D. Manuel de Mello e de Santa Bárbara. Mas -eu tenho-o por certo- a sua algo atribulada carreira teve saldo positivo. Porque Faia foi um avançado possante, habilidoso, lutador e conclusivo. Faia anda agora na casa dos 80 e eu (que o vi jogar bastas vezes) daqui lhe envio o abraço de um anónimo, que ainda não esqueceu o excelente futebolista que ele chegou a ser. Um excelente praticante dessa modalidade atlética a que chamam o Desporto-Rei.

O NOSSO MUNDO É BELO (114) : IÉMEN