sábado, 22 de julho de 2017

AS MINHAS CRÓNICAS (3)


Publicada no «J. do B.» há mais de 18 anos, esta crónica refere-se a um dos navios germânicos arrestados pela Armada Portuguesa no porto de Lisboa em Fevereiro de 1916. Acto hostil, que teve como consequência imediata a declaração de guerra da poderosa Alemanha Imperial a Portugal, apresentada pela via diplomática, passados poucos dias. Eis esse texto integral, intitulado «Algumas linhas sobre o navio 'Barreiro'» :

Armando da Silva Pais, que é uma referência incontestável em tudo o que à História do Barreiro diz respeito, dá-mos -num dos livros que consagrou ao passado da nossa cidade- informação detalhada sobre a existência e sobre o trágico fim de uma unidade da marinha mercante nacional, que navegou com o nome da então vila do Barreiro pintado no seu casco de aço.
Se hoje desejamos abordar o assunto nas páginas deste nosso semanal é, primeiramente, pelo facto dos livros do supracitado autor se encontrarem esgotadíssimos e de, por via de consequência, a informação sobre o navio em causa poder escapar à curiosidade de muitos jovens da nossa terra que se interessam pelo seu passado histórico e por acontecimentos marginais que, como este, também lhe dizem respeito. Depois, porque encontrámos recentemente na Internet, um desenho (da autoria do escritor e artista Luís Filipe Silva, que daqui saudamos com a devida vénia) que reproduz fielmente os contornos longitudinais do navio «Barreiro».
Mas, antes de nos lançarmos no relato dos factos, queremos abrir aqui um breve parêntese para rectificar uma afirmação de Armado Silva Pais; que, na página 202 do último tomo da sua obra sobre o Barreiro, diz o seguinte : «O primeiro dos navios de carga que presumimos ter havido com o nome de 'Barreiro' foi o antigo barco alemão 'Lubeck', apresado no Tejo com outros barcos tomados à Alemanha, após a declaração de guerra a Portugal em Março de 1916». Ora, na realidade (e como referimos no cabeçalho destas linhas), o apresamento dos navios germânicos no Tejo (e noutros portos nacionais) ocorreu em data de 23 de Fevereiro de 1916 e precedeu, portanto, a declaração de guerra que a Alemanha de Guilherme II entregou -oficialmente e pela via diplomática- ao governo do nosso país em data de 9 de Março de 1916. Podemos pois afirmar -por ser um facto histórico indesmentível- que foi esse acto inamistoso da apreensão dos navios, que esteve na origem da dita declaração de guerra.
Isto dito, passamos a descrever -de maneira muito incompleta, é certo- as características do cargueiro «Barreiro» ex-«Lubeck». Construído em 1911 pela firma Schiffwerft Henry Koch AG, de Lubeck, para o armador O.P.D.R. de Oldenburgo, o navio recebeu o nome da cidade onde fora fabricado. Era um navio com 84,60 metros de comprimento por 12 metros de boca, que podia deslocar 3 000 toneladas em plena carga. Quando a guerra eclodiu, o cargueiro refugiou-se, como muitos outros navios da sua nacionalidade, no porto neutro de Lisboa, onde chegou em data indeterminada do mês de Agosto de 1914.
No dia 23 de Fevereiro de 1916 -como já acima foi referido- todos os navios alemães refugiados nos nossos portos, tanto metropolitanos, como coloniais ou insulares, foram investidos por forças da nossa Armada e apresados. Isso, ao que parece, por instigação do governo britânico. Foram ao todo 74 navios mercantes de vários tipos e tamanhos.
Além daquele a que, posteriormente, viria a dar-se o nome de «Barreiro», outros navios conhecidos figuravam nesse lote de umidades da marinha mercante tudesca confiscados. Referiremos, a título de exemplo, dois deles : o «Lahneck», que seria baptizado em Portugal com o nome de «Gil Eanes» e que, anos mais tarde, seria convertido no navio-hospital da nossa frota bacalhoeira; e o «Rickmer Rickmers», um belíssimo veleiro de 3 mastros ao qual os portugueses dariam o nome de «Sagres» e utilizariam como navio-escola da Armada. Este último acabaria por ser devolvido ao seu país de origem em 1983, estando agora a funcionar como navio-museu no porto de Hamburgo.
Depois do seu apresamento no Tejo, o «Lubeck» (depois designado «Barreiro») foi integrado na frota dos Transportes Marítimos do Estado (TMT), que o colocaram nas rotas do comércio internacional. Em 27 de Abril de 1917, o «Barreiro» saiu da Rocha do Conde de Óbidos (Lisboa) rumo a Ruão, porto marítimo-fluvial da Normandia, no norte de França. Como refere Armando da Silva Pais no seu livro, o navio fora consignado à firma Viúva Macieira & Companhia e transportava 4 000 pipas de vinho branco e algumas centenas de sacos de cacau. O «Barreiro» dispunha, então, de uma equipagem de 35 homens, capitaneados pelo oficial cabo-verdiano José Gomes de Pina, natural da ilha do Fogo.
Presumimos que os tripulantes do «Barreiro» seguiram o seu caminho com o coração nas mãos, visto a rota traçada ao longo das costas hispano-francesas ser muito batidas pelos submersíveis germânicos. Submarinos que, naturalmente, constituiam um perigo permanente e letal para a navegação das potências Aliadas. E a verdade é que esses esforçados homens da marinha mercante tinham bastas razões para apreenderem um indesejável encontro com o inimigo invisível.
Esse mau encontro acabou mesmo por acontecer, no dia 1º de Maio de 1917, quando o navio de bandeira portuguesa cruzava o golfo de Biscaia; ou da Gasconha, como preferem chamar-lhe os Franceses. Intimado a parar a máquina pelos submarinistas alemães, o capitão do «Barreiro» viu-se também obrigado a receber no seu navio uma equipa de inspecção armada, que examinou a carga transportada, o livro de bordo e demais documentação e registos. Parece que o facto de terem tomado conhecimento de que o cargueiro interceptado era um dos dos cargueiros recentemente confiscados pelos Portugueses os excitou particularmente. E que, após regresso ao submarino (que não conseguimos identificar) da brigada de inspecção, os artilheiros alemães (que, obedecendo a ordens superiores, esperaram uns minutos, para que os tripulantes do «Barreiro» pudessem evacuar o cargueiro) começaram a alvejar o navio com tiros de peça, afundando-o em espaço curto de tempo.
Um dos membros da tripulação do «Barreiro» (um criado de bordo) morreu em consequência da intensa metralha disparada pelos germânicos. Todos os outros lograram fazer-se ao mar nas baleeiras de bordo e atingir, à força de remos, a costa espanhola. Alguns deles bastante feridos. Depois de tratados no país vizinho pelas autoridades sanitárias locais, todos os sobreviventes puderam regressar a Portugal.

(M.M.S.)


Navio mercante da Grande Guerra afundando-se devido à acção de um submarino alemão. Não é o «Barreiro, mas sim um cargueiro similar e anónimo perdido em idênticas circunstâncias.

CARRÃO

BMW 502, um carro para a burguesia da sua época. Estes modelos são de 1958 e evidenciam o ar aristocrático de uma viatura considerada fiável (do ponto de vista mecânico) e oferecendo altos níveis de conforto. Portugal importou um número reduzido destes veículos, cujo preço era desmotivante, mesmo para os privilegiados que, nesse tempo, podiam dar-se ao luxo de comprar um automóvel.

ESPANHA É AQUI AO LADO


Mapa de Espanha e das suas Regiões Autónomas. É curioso que, vivendo ao lado deste grande país da Europa, nós, Portugueses, sejamos tão pouco curiosos sobre o que existe e o que se passa para lá da linha de fronteira... E, no entanto, o país vizinho é, certamente, uma das nações do continente europeu que oferece maior variedade de atractivos turísticos : natureza, património construído, cultura, praias, culinária, tradição, festas, etc. Seria bom que, pelo menos nesse aspecto, mudássemos de atitude em relação a 'nuestros vecinos'. Teríamos tudo a ganhar. (Clicar com o rato sobre a imagem para a ampliar).

MEDITERRÂNEO, MAR CRUEL

Bonita imagem de um navio misto (quer dizer, movido por uma máquina a vapor e por velas) navegando sob forte tempestade. Hasteia bandeira de Espanha e encontra-se algures no mar Mediterrâneo. Mar que, contrariamente àquilo que muita gente pensa, nunca foi um 'lago tranquilo'. Pois os naufrágios ocorridos no Mare Nostrum sempre foram de todos os tempos, numerosos e mortíferos. E continuam a fazer muitas milhares vítimas. Que são, neste desgraçado início de século XXI, os refugiados africanos ou oriundos dos países em guerra do Próximo-Oriente.


Este livro (que eu já tive a curiosidade de ler) relata-nos centenas de naufrágios ocorridos no mar Mediterrâneo entre 1830 e 1950. Afundamentos de navios que haviam sido especialmente concebidos e construídos para afrontar esse mar cruel. Os dramas repetiam-se ao longo dos anos e provocavam em toda a Europa ondas de compaixão. Hoje, morrem milhares de desgraçados no mesmo espaço líquido, sem que isso nos incomode; ou não tanto quanto deveria incomodar. O mundo está a desumanizar-se e a tornar a morte dos refugiados algo de banal, de rotineiro; que acontece, porque sim. Porque tem de acontecer e nada mais...

JOGO DE BOLA COM 4 MILÉNIOS

Parece que os Gregos (que nos bateram na final do Campeonato da Europa de Futebol de 2004) já praticavam o hoje chamado 'Desporto-Rei' há 4 000 anos. Assim, é evidente que estamos desculpados pelo desaire sofrido em Lisboa -diante dos Helenos- no supracitado ano. Na realidade e segundo alguns estudiosos, disputava-se na Antiga Grécia um desporto algo parecido com o futebol, o Episkyros; mas que combinava, todavia, passes do futebol moderno, com lances de râguebi e de futebol americano. Parece que as equipas eram mistas e que assim, as nossas atletas, agora empenhadas (pela primeira vez) numa competição continental, também podem ver no Phaininda (o outro nome dado ao Episkyros) o antepassado do jogo que elas praticam. Não existem documentos escritos que nos esclareçam sobre as regras desse jogo. Mas sabe-se, através de outras fontes de informação (altos relevos e gravuras deixadas em monumentos e cerâmicas da época, por exemplo), que o campo era de menores dimensões (era do tamanho de um recinto de hóquei), mas que nele se afrontavam duas equipas constituídas por 12 ou 14 jogadores cada uma. E que o objectivo era empurrar todos os jogadores rivais para detrás de uma linha mediana, materializada com calhaus. Para além disso, jogava-se com uma bola fabricada com uma bexiga de porco insuflada. Mas também não se percebe muito bem o que é que esse rudimentar esférico fazia nesse jogo do empurra...



Instantâneo da final do Europeu de 2004, durante a qual a selecção da Grécia bateu a sua congénere portuguesa por 0-1 e se sagrou campeã continental. No fim do jogo, até o Cristiano Ronaldo chorou...

PÉRFIDA DALILA, DESGRAÇADO SANSÃO

Todos aqueles que, como eu, receberam educação cristã (mas não só), se lembram da história bíblica de Sansão e Dalila. Que é divulgada pelo Antigo Testamento, mais exactamente pelo «Livro dos Juízes». É verdade que a tal formação religiosa era (e será ainda) feita na catequese, no tempo recuado em que, na então chamada escola oficial, também íamos aprendendo as primeiras letras. Com o passar do tempo, essa memória foi-se esvaindo, deixando apenas na cabeça dos meninos da minha idade uma imagem difusa. Felizmente, que já existia Hollywood, para nos lembrar tudo aquilo e de maneira mais perene. Para mim, essa recordação de menino foi avivada pelo filme «Sansão e Dalila» («Samson and Delilah»), realizado em 1949 por Cecil B. DeMille; o rei das superproduções com milhares de figurantes e filmadas em surpreendente TechniColor. Creio ter visto essa fita -com Victor Mature e Hedy Lamarr no desempenho dos principais papéis- em finais dos anos 50 da passada centúria.  E com o qual fiquei, naturalmente, deslumbrado... A história contada pelo filme (e pelo texto bíblico) é a seguinte : em tempos recuados, numa Palestina dominada pelos Filisteus, Sansão um eleito de Deus é dotado de força descomunal; cujo segredo reside no facto de nunca lhe ter sido cortada a guedelha. Ora este hebreu rebelde, apaixona-se (depois de enviuvar) pela sua sedutora e ambiciosa cunhada, Dalila; que, a mando dos malvados Filisteus e a troco de uns cobres (que dão sempre jeito), subtrai ao amante o segredo da sua força e, era fatal, lhe corta os cabelos. Acto maldoso que, subsequentemente, permite a captura do musculado herói. Que, nas mãos dos seus captores, vai sofrer as passinhas do Algarve... Não conto o resto, porque talvez haja ainda por aí alguém(*) que nunca tenha visto esta fita, com quase 70 anos de existência, e que me acuse de ser um desmancha-prazeres. Um desaforado lhe roubou o gosto de descobrir (sozinho) o final do filme. Mas deixo aqui a todos algumas imagens dessa produção dos estúdios Paramount, que -quando eu ainda saía da meninice- tanto me impressionou.

(*) O impagável Groucho Marx gabava-se de nunca ter ido ver «Sansão e Dalila». Porque teria detestado ver uma fita na qual «o herói tinha os peitos maiores» que os de Hedy Lamarr.

FINALMENTE, OS ÓCULOS...


O nome do criador dos óculos com lentes de cristal permanece ignorado. Em boa verdade, ninguém o conhece. Mas não restam dúvidas de que o aparecimento deste artefacto -que terá começado a usar-se na Europa ocidental em finais do século XIII- foi uma das maiores e mais úteis invenções medievais. Que veio beneficiar aqueles que necessitavam corrigir problemas de visão. E que podiam (obviamente) pagar tal objecto...

sexta-feira, 21 de julho de 2017

FILATELIA E HISTÓRIA DA DIPLOMACIA

Estes três vistosos selos dos correios da Tailândia foram emitidos em 2011 e comemoram os 500 anos do estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e esse longínquo país do Extremo-Oriente; que, antigamente, se chamou reino do Sião. Esta é a prova provada da primazia dos Portugueses nos confins da Ásia. Região onde chegaram em inícios de Quinhentos e que só se abriria ao contacto e ao comércio com outras nações europeias um século mais tarde.

NECROLOGIA


O mundo das letras e da arte cénica perdeu, em França, em apenas 3 dias, duas das suas figuras mais emblemáticas : Max Gallo, romancista e historiador, membro da Academia Francesa -com mais de uma centena de obras publicadas- faleceu no passado dia 18 de Julho, com 85 anos de idade; Claude Rich, inolvidável actor de teatro e de cinema, deixou-nos ontem, dia 20 de Julho, depois de ter vivido 88 anos. Ambos transmitiram ao povo de França um precioso legado. Aqui fica a nossa homenagem a um e a outro.

COISAS QUE A GENTE VÊ NA TV

Eu sou uma daquelas pessoas que considera ('à tort ou à raison') que os canais portugueses de televisão são de uma grande mediocridade, que não valem grande coisa. Porque se deixaram enfeudar pelas telenovelas, pelo falatório sobre futebol e pela política politiqueira; que preenchem horas infindáveis de programação com conversa estéril, com conversa da treta, sem o mínimo interesse. Embora, reconheça, que isso acontece porque «é o que o povo deseja» e é, portanto, o que dá lucro. Isto dito com toda a franqueza, também tenho de reconhecer que, em certas ocasiões, fico surpreendido com aquilo que os portugueses sabem fazer na matéria. Que pode ser muito bom e digno de ser vendido a qualquer canal estrangeiro que priviligie a transmissão da cultura. Vem isto a propósito de, esta semana, ter visto dois documentários -na RTP2- que me maravilharam e me entusiasmaram : um deles faz parte daquela sempre excelente série que é «Visita Guiada» -brilhantemente apresentada por Paula Moura Pinheiro- que nos convidou a admirar o espólio (de dupla vertente) que é o Museu do Caramulo. Emissão que me convenceu a, quando e se for possível, dar uma volta por aquelas bandas, para poder admirar -de visu- aquelas maravilhas reunidas por dois coleccionadores particulares. O outro documentário, da autoria de Gonçalo Cadilhe (que também o produziu e realizou), intitula-se «Nas Ilhas das Especiarias» e ofereceu, a quem o quis ver, uma fabulosa viagem ao Oriente, às Molucas, na esteira dos navios portugueses do século XVI, que visitaram aquelas longínquas paragens, onde buscavam cravinho e noz moscadas, duas cobiçadas especiarias; que, na Europa do tempo, se vendiam a preço de ouro. Trabalho excelente, também este, que coloca o seu autor e a TV nacional no topo do melhor se pode fazer em televisão. Portanto quando eu digo que não gosto do que se faz na TV, falo na generalidade, Porque há excepções e boas surpresas. Como estas e como algumas outras. Que, a seu tempo e como merecem, eu aqui realçarei.



Paula Moura Pinheiro e Gonçalo Cadilhe são, indubitavelmente, duas figuras da TV que -na RTP2- nos proporcionam programação de grande qualidade. Pena é que as suas emissões não sejam copiadas pelos restantes canais; que deviam preocupar-se em oferecer outra coisa aos seus seguidores do que a estafada trilogia 'bola, política e telenovelas'. Enfim, é esta a minha opinião...

APETECIDA (E CADA VEZ MAIS RARA) SARDINHA

O Conselho Internacional para a Exploração do Mar advertiu a Comunidade Europeia sobre a drástica redução das reservas de sardinhas no Atlântico. Isso, devido à prática da pesca intensiva, que é, sobretudo, praticada ao largo das suas costas pelas nações ibéricas. E aconselha Portugal (e os outros captores) a interromper a sua actividade nesse sector -durante um período de 15 anos- para que se volte aos 'stoks' de 1993. A 'coisa' está, naturalmente, a provocar grande alarido no nosso país, onde não há festa nem festinha de Verão em que não se devorem toneladas e toneladas destes clupeídos. E a cuja família também pertencem os arenques e as savelhas, tão desprezados por cá. Aliás a relação dos Portugueses com as sardinhas é uma história de amor de longa data, que também teve um ciclo intenso, nos tempos áureos da nossa indústria conserveira; que privilegiou (a par do atum) o enlatamento destes peixinhos. Ora, como o conselho dado (apoiado pela C. E.) não é vinculativo, as nossas autoridades farão o que muito bem entenderem, desde que respeitem as quotas. Veremos se o bom senso vai prevalecer ou se se irá praticar uma política de pilhagem, que privará os nossos netos e bisnetos de viverem a convivial experiência das sardinhadas e do copo de vinho... Outra coisa : segundo o INE (Institudo Nacional de Estatística), a pesca da sardinha deu, em 2016, trabalho a menos de 2 000 pessoas no nosso país, mas gerou benefícios de 28 milhões de euros. Ora, como nós todos sabemos que não foram os pescadores e respectivas famílias que lucraram com esses milhões, é fácil acredidat haver um 'lobby' que faça finca pé para que o regabofe continue. Até ao fim (definitivo) da macacada e... da tradicional sardinha assada (com ou sem pimentos) e da petinga frita de escabeche (com ou sem arroz de feijão).

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O NOSSO MUNDO É BELO (123) : REINO UNIDO

VEÍCULO PIONEIRO

Lembro-me de -há  mais de meio século, quando era adolescente- ter visto actuar as equipas do Benfica nos pelados do Barreiro : o Campo D. Manuel de Mello e o Campo de Santa Bárbata, 'salas de recepção' dos clubes da terra, que, então, militavam na 1ª Divisão Nacional de Futebol. Assim como me recordo de ter visto por lá passar todos os outros clubes do tempo; grandes e pequenos. Naquele tempo, ainda não existiam pontes lançadas sobre o estuário do Tejo e estou seguro de que os encarnados -que se deslocavam à Outra Banda de autocarro- utilizavam a ponte de Vila Franca para chegar ao Barreiro. Fazendo, assim, um percurso de muitas dezenas de quilómetros, quando, a 'voo de pássaro', os supracitados campos se encontravam a uns escassos 7 000 metros de distância da capital. Também me recordo muito bem do autocarro do clube da Luz, que, era, nesse tempo, um impressionante veículo de marca Somua, comprado pelo clube para poupar despesas de deslocação da equipa. Esse tal autocarro, estacionava (nos dias de jogos no Barreiro) numa das ruas da então vila, pertinho dos recintos desportivos, onde fazia a admiração da petizada e até dos adultos; porque era um equipamento que, estou certo disso, era único em Portugal. Os outros clubes recorriam -naqueles já longínquos anos 50- a autocarros alugados. O 'carro' privativo do Sport Lisboa e Benfica havia pertencido aos famosos Companheiros da Alegria (dirigidos por Igrejas Caeiro), uma trupe de artistas de variedades itinerante, que, por razões que não vale a pena evocar aqui e agora, o vendeu ao clube lisboeta. Em recordação desse tempo, aqui deixo umas fotografias do antepassado dos recentes 'vermelhões'. Estas fotos foram encontradas em vários sítios da Internet afectos ao Benfica.

UM PORTO DE FRANÇA (VISTO POR UM MESTRE DA PINTURA OITOCENTISTA) E OS 'PORTOS' FEITOS A MARTELO

Esta bonita tela (da autoria de Camille Pissarro, um artista com raízes portuguesas) mostra um navio em manobras de carregameneto/descarregamento no porto francês de Ruão (Rouen). Foi pintada em 1898. Repare-se nos barris que se acumulam no cais e que atestam que aquela cidade normanda foi grande importadora de vinhos; nomeadamente oriundos de Portugal. Curiosidade : lembro-me, por lá ter vivido, que, em inícios de 1965, ainda se exportavam para ali grandes quantidades de vinho do Porto. Nesse tempo essas vendas ainda se faziam em barris sem o selo de origem. Desse modo, o nosso vinho generoso do vale do Douro era 'baptizado' com quantidade não-negligenciável de vinhos franceses (mas não só), sendo -para grande prejuízo da nossa economia e dos consumidores gauleses- considerado um 'negócio da China' para os importadores. Recordo-me que, nesses tempos, também por lá se ingeria uma mistela proveniente de Espanha e abusivamente denominada 'vino de Oporto'; que era de cor mais escura do que o verdadeiro e horrivelmente açucarada. O Instituto do Vinho do Porto acabaria por terminar com esses abusos, ao passar, mais tarde, a exportar os nossos néctares exclusivamente em garrafas portadores do selo que lhes certificava a origem. Ainda a propósito de Pissarro, refira-se que ele foi amigo de muitas celebridades do seu tempo, sobretudo ligadas ao mundo das artes, de entre as quais se podem destacar os pintores Cézanne, Monet e Daubigny. Este grande artista plástico luso-francês -considerado um dos co-fundadores da escola impressionista- nasceu nas Antilhas em 1830. (seu pai era um cripto-judeu de Bragança) e faleceu em 1903. Foi a enterrar em Paris, no famoso cemitério do Père Lachaise.



Estes vinhos do Porto são genuínos e dos (muito) bons. Nada têm, pois, a ver o vinho 'martelado' a que acima nos referimos.

EVOCANDO A FIGURA DE 'SIR' SAMUEL CUNARD

Samuel Cunard (1787-1865) era descendente de uma família que, aquando da Guerra da Independência dos Estados Unidos, jurou fidelidade ao rei de Inglaterra e se instalou no Canadá, em Halifax. Cidade onde o jovem e empreendedor Samuel prosperou nos negócios. Combateu -com o posto de capitão- na guerra anglo-americana de 1812, voltando depois aos negócios, em cujo universo granjeou a reputação de homem probo e empreendedor. Depois, partiu para o Reino Unido, onde foi co-fundador de uma casa armadora de navios, que se tornou, durante muitas décadas, a 'rainha' do transporte de passageiros entre a Europa e a América do norte. Essa companhia que, ainda hoje, se chama Cunard Line (e que está, agora, incorporada na Carnival Corporation) distinguiu-se pela rapidez, segurança e luxo que, ao longo dos tempos, ofereceu às largas dezenas de milhar de pessoas que transportou entre as duas margens do Atlântico. Mas não só, já que a Cunard (em nome próprio ou de sucursais criadas para o efeito) também se dedicou a organizar cruzeiros marítimos a outras regiões do globo. Alguns dos navios da sua prestigiosa frota ainda permanecem na memória das pessoas da minha idade. Mesmo na daquelas (sobretudo nessas) que nunca tiveram o ensejo e/ou a sorte de viajar no «Queen Mary», no «Queen Elizabeth» ou em qualquer outro famoso paquete transatlântico ostentando as suas cores. Samuel Cunard, que, em 1859, foi feito barão pela rainha Vitória, deixou na história dos transportes marítimos (mas não só) uma imagem sem par. A tal ponto que lhe foi erguida uma estátua na sua cidade-natal de Halifax e de o Museu Marítimo do Atlântico (com sede na mesma cidade canadiana) ter consagrado (em parte substancial do 2º andar) uma sala que lhe é exclusivamente dedicada; a si e à sua duradoira companhia de navegação. Também a administração postal do Canadá emitiu o selo que ilustra o topo deste articuleto.

PROVÉRBIO


«Nunca prometas nada a uma criança que não possas dar-lhe; porque, se o fizeres, estás a ensiná-la a mentir».

(provérbio judaico)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O PARAÍSO TRANSFORMADO EM INFERNO

Quando -em 1789- parte da guarnição do famoso navio «Bounty» se revoltou contra o implacável e cruel capitão Bligh, foi procurar refúgio num arquipélago remoto do Pacífico, onde julgou ter encontrado um rincão do paraíso terrestre : as ilhas Pitcairn, que continuam a ser uma das mais remotas ilhas do oceano Pacífico. Esses pedaços de terra, perdidos na imensidão oceânica, transformaram-se, nos nossos dias, num verdadeiro inferno. Sobretudo uma das suas maiores ilhas, a de Henderson, que apresenta a triste particularidade de concentrar (nas suas praias) o maior índice mundial de lixo plástico. Ou seja (segundo avaliadores dignos de fé, ligados à revista «Proceedings of the National Academy of Sciences», da Austrália) 37,7 milhões de peças, pesando perto de 18 toneladas. Esse lixo tem-se ali acumulado ao longo dos anos, ao ritmo alucinante de 13 000 objectos por dia. Será conveniente saber, que Henderson (que, como o resto das Pitcairn, é administrada pelo Reino Unido) se situa num vórtice de correntes marítimas conhecido pelo nome de Volta do Pacífico Sul, que facilita o arremesso para as suas praias de muito do lixo negligentemente lançado ao oceano por navios provenientes da costa ocidental do subcontinente americano. Curioso é que, durante dois séculos, o arquipélago de Pitcairn foi preservado pelos seres humanos que o habitaram. E que, por essa razão, foi classificado (já no nosso tempo), pela UNESCO, como Património da Humanidade. -E agora, que fazer com a porcaria acumulada ? Esta é uma pergunta que requer uma resposta urgente. Como é importante (senão vital) questionar a maneira como, até aqui, a população mundial tem lidado com o plástico. Que se tem mostrado um invasor temível, um indestrutível elemento poluidor.