sábado, 23 de setembro de 2017

GRILO BEM VESTIDO

Dizem os cientistas, que existem à superfície da Terra mais de 900 espécies de grilos. O que é obra ! Entre estes  insectos ortópteros (da família dos gafanhotos), o que a imagem representa é aquele a que comummente se chama 'grilo arcos íris'. Penso não haver nome mais apropriado para dar a este vistoso insecto, que a tão caprichosa Natureza vestiu com (quase) todas as cores e matizes do também vulgarmente designado 'arco da velha'. -Não acham ?

NOS PRIMÓRDIOS DA AVIAÇÃO : ROLAND GARROS

Roland Garros foi o primeiro homem a atravessar o mar Mediterrâneo, numa viagem aérea sem escalas. Para além desse feito, ocorrido a 23 de Setembro de 1913 e que marcou a História da Aviação, este pioneiro (que cometeu a sua proeza aos comandos de um aeroplano Morane-Saulnier, com motor Gnôme de 60 cv), bateu vários recordes do mundo de altitude (todos eles devidamente homologados) e foi um exímio piloto de acrobacias; disciplina em que conquistou inúmeros prémios. Roland Garros também deixou o seu nome na História enquanto piloto de guerra. Durante o primeiro conflito generalizado (1914-1918) abateu aviões do inimigo e a ele se ficou a dever a invenção de um dispositivo que permitia o tiro de metralhadora através do hélice; sistema esse, que seria mais tarde aperfeiçoado pelo engenheiro holandês A. Fokker, que se colocou ao serviço da aviação da Alemanha Imperial. Roland Garros -insigne aviador francês- morreu num combate aéreo a 5 de Outubro de 1918, quer dizer a escassas semanas do término da 1ª Guerra Mundial. Com o seu nome foi baptizado um dos maiores estádios de ténis do mundo, que se situa na Porta de Auteuil, em Paris.

(M.M.S.).

P.S.: estas linhas (algo modificadas) fizeram parte de uma crónica de maior dimensão, publicada numa revista castrense («M. A.») em 1983.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A SAÚDE PRIMEIRO ! CUIDADO COM O USO EXCESSIVO DE SAL

-Sabia que -segundo estudos  recentes e com conclusões apresentadas pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão- se cada um de nós consumisse menos de 2 gramas de sal por dia, esse simples acto reduziria a taxa de AVC's de 30 a 40%, com repercussões nos cinco anos seguintes ? Pois é verdade. O que significaria que, em Portugal, haveria menos 11 000 acidentes vasculares cerebrais por ano. -Sabia, por outro lado, que o sal pode ser substituído, em muitas ocasiões, por ervas aromáticas, por especiarias, pelo vinagre, pelo limão; cujo uso culinário não tem consequências nocivas para o nosso corpo ? Experimente e melhore a sua saúde.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

AS MINHAS CRÓNICAS (9)

«A MULETA DE PESCA BARREIRENSE» - Com este título, foram publicadas (em data de 22 de Fevereiro de 2002) no semanário regional «J. do B.» estas linhas referentes a uma curiosa (e desaparecida) embarcação da qual já ninguém se lembra. A não ser, ainda e porventura, alguns velhinhos, com idades a rondar os 100 anos.  Vou reproduzir aqui esse texto, apenas com algumas alterações de somenos importância. Ei-lo :

É sabido que o Barreiro foi, em tempos que já lá vão, uma importante terra de pescadores. E também de marítimos exercendo outro género de fainas, tais como, por exemplo, a do transporte fluvial de passageiros e mercadorias entre a nossa industriosa cidade, a capital portuguesa e outras localidades da borda d'água.
O trabalho específico desses barreirenses do passado cumpria-se, essencialmente, no espaço navegável do Coina e do estuário do Tejo, mas podia estender-se, também e por vezes, muito para além da barra do maior dos rios ibéricos.
Os 'camarros' ligados professionalmente a tais actividades residiam, como é natural, nas zonas de praia que envolvem a sua terra natal. Zonas onde varavam as suas embarcações e onde existiram, desde recuadas épocas, indústrias de construção naval e de reparação de barcos. Segundo refere Armando da Silva Pais num dos seus indispensáveis livros sobre a História local, «O Barreiro Antigo e Moderno», o último desses estabelecimentos industriais pertenceu a Francisco José Bravo e cessou a sua actividade em 1914.
Para poderem exercer esses seus ofícios, os marítimos barreirenses utilizaram vários tipos de embarcações. As silhuetas de algumas delas (fragatas, varinos e botes, por exemplo) permanrcem vivas na memória de muita gente. E alguns dos nossos conterrâneos mais idosos e mais lúcidos talvez ainda se recordem (como acima sugeri) de terem observado, na sua meninice, o casco bojudo e o velame, deveras original, das derradeiras muletas 'barreireiras'.
Esse tipo de embarcação que, ao que parece, perdurou até aos anos 20 (do passado século, obviamente) também era comum aos marítimos do Seixal. Daí que a muleta figure na heráldica municipal das duas cidades vizinhas. Aliás como elemento principal dos respectivos brasões de armas.
Refira-se agora, depois deste intróito, que a muleta era, ao que se presume, um barco de origem mediterrânica; e que se desconhecem as circunstâncias e a época exacta (talvez no decorrer dos séculos XVII ou XVIII) da sua introdução no estuário do Tejo. Há até quem veja na muleta barreiro-seixalense uma parente afastada de certa barca catalã e da 'paranzella', uma embarcação usada pelos insulares da Itália ocidental.
A muleta era um barco de casco robusto e arredondado, que estava equipada com um aparelho algo complexo, compreendendo mastro, paus e vergas, para além de de uma dezena de panos de diferentes formas e dimensões. Destinada, em princípio à pesca de arrasto, a muleta dispunha de uma tripulação de mais ou menos quinze homens.
Media entre 10 e 15 metros de comprimento e podia arvorar mais de 170 m2 de vela, o que era considerado extraordinário para uma embarcação com as suas dimensões. O seu mastro era curto e acentuadamente inclinado para a vante. Sustinha uma verga muito comprida (de alongamento duas vezes superior ao do mastro), na qual se içava a vela de maiores proporções. A muleta estava ainda equipada com dois compridos paus (os 'botalós'), que, partindo de meia nau, se prolongavam muito para além da proa e da popa da singular embarcação. Esses paus serviam para hastear parte do restante velame e para fixar alguns dos cabos necessários à utilização da 'tartaranha'.
Além da sua vela principal, que era triangular (uma vela latina, pois), a muleta envergava panos que eram designados, segundo a sua forma e serventia, pelos bizarros nomes de 'varredouras' (de cima ou de baixo), 'muletins', 'toldos' e 'cozinheira'. Apesar de extraordinário, tal conjunto vélico conferia a este desaparecido barco de pescadores uma silhueta das mais airosas. Facto que se pode comprovar através do visionamento de algumas fotografias, desenhos e pinturas que perenizaram a sua recordação.
A 'tartaranha', que acima referimos, era uma rede de arrasto em forma de saco, manipulada lateralmente pelos homens das muletas. Curiosamente, em determinada altura (início do século XIX), as leis vigentes no nosso país reservaram a exclusividade do seu uso aos pescadores da Arrentela, do Barreiro, dos Olivais e do Seixal. O peixe capturado pelas muletas, nomeadamente pelas embarcações barreirenses desse tipo, destinava-se, sobretudo, ao abastecimento da população de Lisboa, cidade para cujos mercados ele (o pescado) era tranferido diariamente, graças à utilização das 'enviadas', barquinhos velozes, concebidos para assegurar essa função.
As muletas timham por zona habitual de pesca a barra do Tejo e uma porção da costa portuguesa que se estendia, 'grosso modo', da Nazaré até ao cabo Espichel. No supracitado livro de Armando da Silva Pais (que foi uma das diversas obras de que nos socorremos para podermos redigir estas despretensiosas linhas), colhemos os nomes de todas as muletas existentes no Barreiro por volta de 1875. Essa relação, que foi fornecida ao autor de «O Barreiro Antigo e Moderno» por António José da Loira, menciona as seguintes embarcações : a «Bexiga», a «Saloia», a «Gaiola», a «Joana», a «Bolacha», a «Patarata», a «Larga-a-Rolha», a «Estrada-de-Ferro», a «Choca», a «Zabumba» e a denominada «Os Leões».
Os tripulantes das muletas, aliás como os demais pescadores barreirenses de finais do século XIX, usavam um traje que, no essencial, era constituído pelas seguintes peças vestimentares : camisola de lã em tons amarelados, colete carmesim, cinta vermelha e calças castanhas. Na cabeça, usavam esses homens um tradicional barrete vermelho com dobra verde. Calçavam meias altas de lã branca (até ao joelho) e botas de cano de meia-perna.
Para terminarmos estas linhas sobre a 'muleta barreireira' (nome pelo qual esse barco também era conhecido), informamos aqueles que tiveram a santa paciência de nos ler do seguinte : poderão, se quiserem, admirar no nosso riquíssimo Museu de Marinha (que funciona, como é do conhecimento geral, numa ala do mosteiro dos Jerónimo) alguma preciosa documentação sobre o veleiro aqui evocado. Com efeito, existem no património exposto dessa prestimosa instituição, uma série de fotografias (datadas do início do século XX), gravuras e pinturas realizadas por artistas que viveram nesse já longínquo tempo das muletas. E que tiveram a feliz ideia de reproduzir as ditas embarcações, para regalo dos nossos olhos.

(M. M. S.).

-COMO FAZER UM HERÓI ?

«RECEITA PARA FAZER UM HERÓI»

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

** Reinaldo Ferreira (1922-1959), poeta português **

ALBARQUEL


Esta fotografia -de autor que eu não consegui identificar- mostra a praia de Albarquel (nas proximidades da cidade de Setúbal) em meados do século XX. É, pois, a imagem de um tempo ainda sem grande número de turistas (nacionais e estrangeiros) e sem automóveis. Agora, nos meses de veraneio, a praia está pejada de banhista e na estrada que a serve é impossível estacionar um automóvel depois das 8 horas manhã. Mudam os tempos...

CINE-NOSTALGIA (79)

«PIXOTE, A LEI DO MAIS FRACO» é um filme brasileiro realizado, em 1980, por Hector Babenco. Do elenco artístico fazem parte Fernando Ramos da Silva, Marília Pêra, Jorge Julião, Gilberto Moura, Zenildo Oliveira Santos, José Nilson dos Santos e Jardel Filho. Distribuído internacionalmente pela Columbia Pictures, tem fotografia a cores e uma duração de 125 minutos. Foi um dos grandes sucessos do cinema do país irmão das duas últimas décadas do século XX. É um filme duro (direi mesmo muito violento), sem concessões, que aborda o tema da delinquência infantil, que é uma constante (por falta de resolução dos graves problemas sociais que atormentam o país) nas ruas da cidade de São Paulo. A história contada é a de Pixote, um rapazito de condição miserável que, apanhado numa rusga, transita por casas de correcção, que são autênticas universidades do crime; onde ele -com os seus amigos Dito, Fumaça e Lilica, entre outros- descobre a droga, a violência (incluindo os homicídios cometidos a sangue frio e, por vezes por razões fúteis), o negócio do sexo, etc. «PIXOTE, A LEI DO MAIS FRACO» constituiu, aquando da sua estreia, um choque tremendo na Europa, que, despreocupadamente, ignorava o alto grau de criminalidade que invade -ainda hoje, pois não houve melhorias- as grandes urbes da América do Sul. E da qual os jovens de baixo extracto social são os protagonistas e as principais vítimas. Esta película foi rodada como se tratasse de um documentário (atroz), que exala uma indesmentível realidade, que abrande milhões de meninos e de meninas, que vivem num intolerável mundo de desesperança. Para reforçar essa ideia, basta dizer que o 'herói' da fita, Fernando Ramos da Silva (um amador recrutado pela produção num dos bairros miseráveis de São Paulo, a maior cidade do hemisfério sul). tinha 10/12 anos na altura da rodagem do filme e que, alguns anos mais tarde, quando contava 19 anos de vida, foi abatido mortalmente a tiro pela polícia, aquando de um ataque à mão armada falhado. Quem ainda não viu este filme brasileiro, unanimamente aplaudido e vencedor de vários prémios internacionais (em Locarno, em San Sebastian, em Nova Iorque, etc.), deveria vê-lo sem tardar.