terça-feira, 10 de novembro de 2009

HERÁLDICA MUNICIPAL (6)



O brasão aqui representado foi o escolhido pelo estado de Israel para servir de símbolo municipal à cidade (três vezes santa) de Jerusalém. É sabido que este escudo camarário não é consensual, que é rejeitado, como não podia deixar de acontecer, pelas comunidades não-hebraicas da cidade. Primeiramente, devido à simbologia que encerra, que começa na sua cor predominante, que é o azul da bandeira do estado de Israel; depois, porque o muro representado não pode ser outro senão o Muro das Lamentações, primeiro lugar de culto do judaismo; seguidamente, porque o leão é o emblema milenar da tribo de Judá; enfim, porque o nome da cidade, que encabeça o brasão, está redigido em caracteres do alfabeto utilizado exclusivamente pelos hebreus.
Lembro que o exército judeu se apoderou da totalidade de Jerusalém em 1967, depois da chamada Guerra dos Seis Dias, no final da qual venceu uma coligação de nações árabes. E que o governo do país proclamou em 1982, unilateralmente, a velha e venerável cidade «capital eterna e indivisível do estado de Israel».
Jerusalém tem, actualmente, 800 000 habitantes. As duas fotografias aqui publicadas demonstram -claramente, sem sombra de dúvidas- a sua pertença espiritual às três grandes religiões monoteístas : Judaísmo, Islão e Cristianismo. Quanto ao seu futuro político, o tempo decidirá… Porque na História dos Povos nada é imutável.
Fotos apresentadas : 1) o Muro das Lamentações, que é, como se sabe, vestígio de uma muralha mandada erigir pelo rei Herodes há dois mil anos; 2) vista de Jerusalém. Em primeiro plano, à esquerda, a mesquita Al-Aqsa, com a sua bela cúpula dourada e, logo atrás, a igreja do Santo Sepulcro.


À CEUX DU LATHAM 47

Construído por uma empresa do ramo aeronáutico de Caudebec-en-Caux, cidadezinha da região agora denominada Alta Normandia, o hidroavião Latham 47 desapareceu no Árctico no dia 18 de Junho de 1928, quando tentava localizar e socorrer os sobreviventes do dirigível «Italia», que deveria levar ao Pólo Norte a malfadada expedição do general Umberto Nobile. No desastre pereceu toda a tripulação do hidro francês (René Guilbaud, Albert Cavelier de Cuverville, Gilbert Brazy e Émile Valette), além dos noruegueses Leif Dietrichson e Roald Amundsen. Este último era, como é sabido, o prestigioso explorador que havia conquistado os dois pólos e franqueado, pela primeira vez, a famosa passagem do Noroeste, procurada desde inícios do século XVI pelos navegadores europeus.
A primeira fotografia que aqui vos deixo pertence às colecções do Museu do Ar (Le Bourget, França) e representa a saída da fábrica do Lathan 47 poucos dias antes do desastre. A segunda, tirada pelo bloguista há ¼ de século, mostra o monumento -dedicado às vítimas da tragédia- que se encontra em Caudebec-en-Caux, junto a uma estrada ribeirinha do Sena, que liga a cidade de Ruão ao porto do Havre. A terceira e última foto mostra a silhueta do hidroavião em causa, gravada num monumento de Calais, cidade de onde era originário um dos membros da sua equipagem : o mecânico Brazy.



RECORDAÇÕES DE UM PASSEIO PELOS 'STATES' : ENCONTRO NO ARIZONA COM O POVO NAVAJO

Em 1999 tive a ocasião de passear, durante duas curtas semanas, pelo Oeste dos Estados Unidos da América. Nessa altura percorri parte da Califórnia, do Nevada, do Utah e do Arizona, onde visitei os lugares mais bonitos que, nesses estados da União, se podem mostrar aos turistas : Hollywood, San Francisco, Carmel e Las Vegas (entre outros), mas, sobretudo, sítios naturais (e protegidos) de uma beleza e espectacularidade raras como trechos da costa do Pacífico, Bryce Canyon, Yosemite, Parque Nacional das Sequóias, Vale da Morte, Deserto do Mojave, Grande Canyon do Colorado, Monument Valley, etc, etc. Enfim, muita coisa em pouco tempo, mas que me maravilharam e que marcaram para sempre o meu espírito, tal não é a sua grandiosidade, direi mesmo a sua majestade.
Uma das visitas que mais me agradou foi a que fiz ao território da nação Navajo em pleno coração do Arizona. Isso, pelo facto dessa região governada pela maior comunidade ameríndia dos E.U.A., os Navajos, encerrar sítios que me impressionaram pela sua beleza agreste, como, por exemplo, o já citado Vale dos Monumentos, que eu aliás já conhecia dos westerns de John Ford e de outros fazedores de cowboyadas para o grande ecrã e para a televisão. Diga-se de passagem que a minha paixão pelos clássicos do género cinematográfico referido («A Desaparecida», «Cavalgada Heróica» e outros) me permitiu reconhecer, à primeira vista, alguns dos lugares mais fotogénicos do território em questão. Por outro lado, agradou-me o breve contacto que me foi facultado (a mim e aos meus acompanhantes) com membros da comunidade Navajo. Povo que, como já acima referi, constitui uma nação no seio dos Estados Unidos, com direitos e privolégios que lhe são próprios, exclusivos. Os Navajos (como aliás outros povos autóctones) têm um estatuto que lhes dá (foi o que me pareceu) mais autonomia do que aquela que nós, Portugueses, acordamos às nossas regiões insulares. O território desta nação ameríndia tem cerca de 70 000 km2 e é a pátria dos quase 300 000 Navajos que vivem na América do norte. Estende-se por quatro estados (como mostra o mapa que aqui publicamos), que são o Arizona, o Novo México, o Utah e o Colorado. A nação Navajo funciona, politicamente falando, como uma democracia ocidental, com um presidente eleito (o actual chama-se Joe Shirley Jr.) e com delegados (88), que correspondem aos nossos deputados. Estes representam as 110 comunidades tribais dispersas pelo território nacional e reúnem-se regularmente (para discutir e deliberar sobre assuntos de interesse comunitário) no seu parlamento de Window Rock : a Navajo Nation Council Chamber. Diga-se, a título de curiosidade, que a sede do governo Navajo é um curioso edifício, onde a sala de reuniões tem a forma de um ‘hogan’, a habitação tradicional deste povo. Que hoje vive, essencialmente, das receitas proporcionadas pelo turismo, da venda de artesanato (tapetes e jóias, sobretudo) e da pastorícia. Confesso que não sei se, a exemplo de outras nações ameríndias dos Estados Unidos, os Navajos também exploram casinos. Casas de jogo, que proporcionam lucros enormes e que, nos E.U.A., só podem funcionar nas chamadas reservas índias e em lugares limitados do território norte-americano : estado do Nevada (Las Vegas, Reno, Laughlin, etc) e cidade de Atlantic City, na costa leste.




Escudo oficial da nação Navajo



o território da nação Navajo (70 000 km2) estende-se por quatro distintos estados : Arizona, Novo México, Utah e Colorado. Mas há outras comunidades deste grupo étnico ameríndio espalhadas por outros estados da União, como, por exemplo, pelo Oklahoma e pela Califórnia



Parlamento da nação Navajo (Navajo Nation Council Chamber) em Window Rock, Arizona. A sala de reuniões tem a forma de um gigantesco 'hogan'.



Joe Shirley Jr., actual Presidente da nação Navajo



a joalharia tradicional dos Navajos utiliza duas matérias-primas essenciais : a prata e as turquesas



capa de um livro de Tony Hillerman, conhecido (e reconhecido)autor de romances policiais. Os heróis deste escritor são dois detectives da polícia tribal navaja -o tenente Joe Leaphom e o sargento Jim Chee- que fazem parte da esquadra de Tuba City. Curiosamente, foi nesta pequena localidade que eu pernoitei, durante a minha visita à mais populosa nação ameríndia da América do norte



a esposa do bloguista diante de um 'hogan', a habitação tradicional do povo Navajo (Monumento Valley, Arizona, 1999)


esta foto (tirada pelo bloguista em Maio de 1999) mostra o interior de um 'hogan', onde a dona de casa se entrega a trabalhos de tapeçaria

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

AMIZADE NO FEMININO



duas 'squaws' da tribo dos Papaçorda. Fotografia tirada em 1995 na reserva Huron de Quebeque (Canadá)



saboreando um bom vinho do Alentejo, para celebrar um reencontro

O eventual leitor deste blog é um fervente adepto da tauromaquia, mas não sabe quem é este garboso e descontraído cavalheiro em traje ‘de luces’, capote e ‘montera’. -Não se envergonhe por isso, porque nem o mais pintado dos aficionados o reconhece como pertencendo ao mundo dos toiros. É que em matéria de arenas, o fotografado só viu as que os estúdios da Paramount armaram para poder rodar uma das suas fitas mais prestigiosas dos anos 20 do século passado. De facto, este toureiro de meia-tigela nunca recebeu os aplausos das ‘peñas’, nem os olés dos outros apreciadores da festa brava. É apenas um actor. Um tipo, de apelido Guglielmi, a que o filme «Sangue e Arena» («Blood and Sand», realizado em 1922 por Fred Niblo ) ofereceu a consagração, o estatuto de primeiro ‘latin lover’ do celulóide e as maiores manifestações de histeria femenil jamais vistas em Hollywood. –Então já reconheceu este falso matador de toiros, que, para além de ser a estrela mais cintilante do cinema mudo, também foi um exímio dançador de tangos ? -Sim, é esse mesmo : é Rudolph Valentino.




A MAIOR BANDEIRA...

Creio que a maior bandeira jamais desfraldada por um navio é aquela que arvora o «Simón Bolívar», veleiro-escola da armada venezuelana. É um pavilhão enorme, com uma área total superior (segundo penso) à de qualquer vela desse ‘três mastros-barca’ construído num estaleiro de Bilbau (Espanha). Aqui fica a ilustração (espectacular !) da gigantesca bandeira e, naturalmente, do referido navio da armada bolivariana, como é costume designar agora a marinha militar da Venezuela. Em baixo reproduz-se uma foto do mesmo navio navegando no rio Sena, aquando de uma participação no encontro de grandes veleiros em Ruão, França. Esta última fotografia foi tirada pelo bloguista em 1994. Para saber algo mais sobre o «Simón Bolívar», aconselho uma visita ao meu outro blog www.alernavios.



COMES & BEBES

Gosto muito de comer, como (penso eu) qualquer outra pessoa normal, e os pratos da nossa culinária que eu prefiro são, para além do tradicional cozido à portuguesa, os confeccionados com peixes da nossa costa, que eu considero serem os melhores do mundo e arredores. Da simples sardinha assada na brasa ao pargo no forno, passando por uma massada de corvina, um atum de cebolada, um ensopado de enguias, uma espetada de tamboril, uns chocos com tinta ou um bife de espadarte, tudo marcha. E com deleite, não tenho vergonha de o dizer ! –Mas uma estadia de várias décadas no estrangeiro, abriu-me as portas de um mundo que aposta numa infinidade de outros produtos e, forçosamente, em outros gostos, outros sabores, que eu ainda recordo com saudade. Com nostalgia, porque saborear esses tais pratos de origem estrangeira tornou-se difícil devido à impossibilidade de encontrar –no Alentejo, onde eu agora resido- as matérias-primas indispensáveis à sua elaboração.
Gosto muito, por exemplo, de um prato normando preparado com um enchido chamado ‘boudin noir’ e que é, geralmente, servido (depois de ter sido passado pela frigideira numa colher de manteiga) com um simples puré de batata e com maçã (fatiada), também ela previamente aloirada no já referido recipiente. É um prato simples, mas extremamente saboroso, desde que não se tenha reticências em comer o sangue de porco com que ‘boudin’ é feito. Tal como a nossa morcela ou o nosso chouriço de sangue. Este prato é tradicionalmente acompanhado com uns bons copos de cidra fresquinha. Refiro que esta bebida, proveniente da fermentação de uma maçã local, é melhor se for originária do ‘pays’ de Auge ou então do ‘pays’ de Caux, as mais reputadas regiões produtoras da Normandia. Eu até recomendo uns copos de Duché de Longueville (bruto), cidra produzida no verdejante Vale do Scie, situado às portas de Dieppe.
Um destes dias falarei aqui de uma outra espantosa iguaria francesa –pela qual eu também me perco- que é o ‘foie gras’. Cujo complemento ideal são uns copinhos do divinal Sauternes, um vinho branco licoroso, produzido na região de Bordéus.