sábado, 7 de novembro de 2009

BACALHAU : O OURO DOS BANCOS DA TERRA NOVA

Um anónimo bacalhoeiro francês zarpa de Fécamp (Normandia) para mais uma campanha de pesca nos grandes bancos da Terra Nova. Que, por essa altura (a foto data dos anos 30 do século XX) ainda dispunha de imensas reservas de bacalhau. Ao mesmo tempo, largavam dos portos lusos navios idênticos com o mesmo objectivo : capturar uma espécie apreciada pelo seu custo (relativamente modesto) e pelo seu altíssimo valor alimentar. A esmagadora maioria dos portugueses, que nesse tempo vivia com grandes dificuldades económicas, idolatrava esse peixe barato, saboroso e presente todos os dias nas suas modestas mesas. Tão presente que acabou por receber o apodo de ‘fiel amigo’. Hoje, a pesca do bacalhau é reservada aos países que o possuem -já em quantidade limitada- nas suas águas territoriais e interditam as outras nações de o capturar, como acontecia no passado. Assim, os portugueses passaram a importá-lo do estrangeiro, nomeadamente da Noruega. Para nosso grande prazer, embora os preços tenham subido em flecha e este produto seja agora quase um luxo. Mudam os tempos…



FILMES CONTADOS

Quem se lembra dos fascículos da ‘Colecção Cinema’ (semanal) e do ‘Cine Romance’ (bi-semanal), que -nas décadas de 50 e de 60 do século passado- resumiam (e ilustravam) os filmes em exibição nas salas portuguesas ?
Eu ainda conservei alguns exemplares (hoje raríssimos, mesmo nos alfarrabistas) desses livrinhos que, em 30 páginas, resumiam o entrecho das fitas, atenuando assim a frustração de não as podermos ver todas ou espicaçando o nosso interesse pelas películas em cartaz nas salas de cinema do nosso bairro.
A primeira dessas colecções que eu aqui refiro (e que era publicada pela Agência Portuguesa de Revistas) já apresentava a capa e a contracapa a cores, enquanto a segunda delas (editada pelo Fomento de Publicações, Lda), talvez por ser mais antiga, era toda ela ilustrada (capas e fotogramas dos filmes) num tom monocolor. Ambas custavam 1$50 (1 Escudo e cinquenta centavos) e, penso eu, não eram as únicas revistas do género comercializadas no nosso país.
Além do resumo dos filmes, estes fascículos ofereciam as fichas técnica e artística das películas que propunham ao público periodicamente e, por vezes, alguns comentários sobre as ditas. As contracapas eram, geralmente, ocupadas por fotografias de populares estrelas de cinema e suas breves biografias. Por vezes falhavam, traindo as espectativas dos leitores, e impingiam anúncios publicitários.
As fotos das capas que aqui vos deixo são referentes aos filmes «Honra a Um Homem Mau («Tribute to a Bad Man»), western dirigido por Robert Wise em 1956 e «A Escondida» («La Escondida»), um sucesso do cinema mexicano, realizado também nesse mesmo ano de 1956, por Roberto Gavaldón.


CURIOSIDADE : YERBA BUENA

No idioma dos nossos vizinhos do lado, na língua que falava Cervantes, ‘yerba buena’ (*) significa hortelã, menta. E foi esse o nome que eles escolheram (por lá abundar essa planta aromática ?) para dar à explêndida baía californiana onde hoje se ergue San Francisco; que é, porventura, a mais bela cidade da costa norte-americana do Pacífico. A estampa que aqui reproduzimos mostra esse pacato lugar por volta de 1847, alguns anos antes de se iniciar a famosa corrida ao ouro, que fez de Frisco um dos portos mais movimentados do mundo.

(*) a ortografia actual é hierbabuena.


AÍ VAI O «PESTAROLA» !...

Esta vistosa e nostálgica foto mostra o varino «Pestarola», propriedade da Câmara Municipal do Barreiro, navegando no estuário do Tejo. Mar interior onde outrora, quando eu era rapazote, as embarcações deste tipo (mas também as fragatas e os botes) eram chusma. Hoje, para além de alguns raros exemplares -preservados pelas autarquias ribeirinhas do grande rio e por alguns particulares- só perdura a saudade. A saudade dos barcos, naturalmente; porque do regime salazarento desse tempo, só podem sentir saudades aqueles a quem a ditadura beneficiou, os inconscientes ou os masoquistas.


QUE FOI FEITO DOS VELHOS 'CLIPPERS' DE CABO RUIVO ?

Quando eu era miúdo, nos idos de 50 (do passado século, como não podia deixar de ser), vivi no Barreiro, terra à qual ainda hoje me sinto ligado por fortes laços de afecto. Geralmente só dali saía para ir a Setúbal -ao Liceu Bocage, onde durante 4 anos fingi que estudava- e para fazer uma viagem anual à aldeia do Alto Alentejo onde tenho as minhas raízes. Desta grande aventura periódica fazia parte uma interminável jornada de comboio (a vapor), que começava na histórica estação do Rossio e tinha o seu término, muitas horas mais tarde, num adormecido apeadeiro do hoje quase desactivado ramal de Cáceres.
Recordo-me que, entre os muitos e variados espectáculos proporcionados por esse périplo, dois me encantavam e excitavam particularmente : a passagem diante do imponente castelo de Almourol, erigido pelos cavaleiros Templários de D. Gualdim Pais no século XII, e a passagem fugaz defronte da doca de Cabo Ruivo; onde, em determinada época, se alinhavam vários hidroaviões ‘Clipper’ da companhia Pan American (hoje extinta), que asseguravam uma linha regular de passageiros entre a costa leste dos Estados Unidos (Port Washington, Nova Iorque) e a Europa continental, com escala obrigatória nos Açores (Horta) e na nossa velhinha capital.
Esses magníficos aparelhos -do tipo Boeing 314- acabaram por desaparecer, depois de lá terem permanecido vários anos ao abandono. Vítimas, sem dúvida, das ‘performances’ de aeronaves comerciais mais modernas e mais rápidas, que eram capazes, já na transição das década de 50/60, de transpor o vasto oceano Atlântico em voos sem escala.
Algumas pessoas da minha idade (ou mais velhas) com quem tenho abordado o assunto, ainda se lembram dos ditos aparelhos, sem, contudo, poderem satisfazer a minha curiosidade sobre as circunstâncias do seu desaparecimento daquele lugar. Fica a saudade…





Os aparelhos que as fotos documentam são (de cima para baixo) : 1º - o «Yankee Clipper» (matrícula NC 18603), que assegurou -no dia 20 de Maio de 1939- o primeiro serviço transatlântico de correio aéreo entre Port Washington (base da companhia Pan American em Nova Iorque) e Lisboa, com paragem técnica obrigatória na cidade da Horta. Durante um desses voos, o hidro em referência despenhou-se no Tejo (a 22 de Fevereiro de 1943) e afundou-se. 2º - o «Dixie Clipper» (matrícula NC 18605), que inaugurou o primeiro serviço aéreo transatlântico regular de passageiros em 29 de Junho de 1939. Nesse dia viajaram, além dos 12 membros de equipagem do «Dixie», 22 passageiros. Gente rica que pagou por cada bilhete para a Europa 375 dólares, soma bastante elevada e que corresponderia, nos nossos dias, a cerca de 4 000 dólares. Segundo as parcas informações de que disponho, este aparelho sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e foi um dos ‘clippers’ da Panam a ser desmantelado nos anos 50, depois de ter sido considerado obsoleto. 3º - ‘clipper’ da Pan American não identificado, que ilustrou a capa da prestigiada revista «Life» (nº de 20 de Outubro de 1941). Na foto vê-se uma equipa técnica a assegurar trabalhos de manutenção no exterior do hidro.
Esta linha de passageiros partia também ela de Port Washington (Nova Iorque), fazia escalas nos Açores (Horta) e em Lisboa, e tinha o seu término em Marselha. Apesar dos riscos incorridos pela aviação comercial norte-americana, parece que este serviço intercontinental se manteve durante o conflito. Só que eu duvido, por óbvias razões, que a linha tenha chegado a Marselha, depois dos alemães terem extinguido, em França, a chamada Zona Livre (Novembro de 1942) e ocupado militarmente a antiga Massília.
Curiosidades : Os hidroaviões do tipo Boeing 314, os famosos ‘clippers’, eram os maiores aviões comerciais do seu tempo. A fuselagem, que media 33 m de comprimento, estava dividida em dois pisos que comunicavam entre eles através de uma escada de caracol. No andar superior estavam o posto de pilotagem e outros serviços técnicos, além dos compartimentos para a bagagem; no nível inferior acomodavam-se os passageiros e funcionavam os serviços de apoio (cozinha, sala de refeições, salões, bar, cozinha, sanitários, etc). O Boeing 314 era insonorizado e o serviço oferecido aos viajantes era excelente. Tinha (segundo se disse e se escreveu) a classe dos hotéis de luxo. Durante os voos de noite, a oferta de lugares a bordo era limitada, de modo a que todos os passageiros pudessem dispor do seu próprio beliche. O sistema de propulsão do hidro era constituído por quatro motores Wright ‘Double Cyclon’, cuja potência adicionada equivalia à força de duas locomotivas. A sua autonomia era de 5 630 km à velocidade de cruzeiro de 294 km/hora. Dos 12 aparelhos deste tipo construídos pela firma Boeing, 9 voaram com as cores da Pan American e 3 foram vendidos à B.O.A.C., companhia aérea britânica.

AS MINHAS CANÇÕES PREFERIDAS

Nascido em 1945, posso dizer que atravessei toda a época dourada dos ‘Beatles’ e de outros rebolacalhaus de origem anglo-saxónica sem me deixar ganhar pela histeria colectiva que a sua música provocou pelo mundo fora. Correndo o risco de passar por um patego, até posso dizer que foi para mim uma chatice de todo o tamanho ter que ouvir, durante anos, esses grupos (que passaram a dar concertos, como o haviam feito outrora os grandes compositores clássicos…) a monopolizarem as ondas hertzianas nacionais (e não só), onde berravam todo o santo dia numa língua, para mim, desconhecida. Creio até que vem dessa época –a da minha adolescência- a minha desabituação de ouvir rádio. Por causa do fartote que apanhei. Não é que fosse totalmente impermeável à algumas músicas que esses grupos de guedelhudos tocavam. Confesso até que algumas delas me eram agradáveis ao ouvido, como, por exemplo, «Yellow Submarine» dos moços de Liverpool. Mas o facto de não perceber patavina da letra (ao que parece muito básica) com que ilustravam essas tais melodias, ditou o meu desinteresse pelas inglesisses. E podem ter a certeza que tal facto não me deixou minimamente frustrado.
Do que eu gostava mesmo era, no domínio da música ligeira, de coisas cantadas na nossa língua ou, então, em castelhano (que falo atabalhoadamente, mas entendo) ou em francês, idioma que, sem falsa modéstia, domino bem. Daí que os meus cançonetistas preferidos sejam lusa gente, brasileiros e artistas de fala hispânica ou gaulesa. Hoje apetece-me lembrar uma das minhas melodias preferidas : «Ave Maria no Morro», que foi escrita e composta em 1942 por Herivelto de Oliveira Martins, um artista infelizmente pouco conhecido em Portugal.
Esta canção (cuja letra recordaremos no final deste texto) foi divulgada, pela primeira vez no ano da sua criação pelo Trio de Ouro, cujos integrantes eram o já referido Herivelto, a sua mulher Dalva de Oliveira (também ela bastante popular no Brasil) e Nilo Chagas. O sucesso foi tal, que «Ave Maria no Morro» rapidamente ganhou o estatuto (amplamente merecido) de património nacional brasileiro e foi cantada por artistas da craveira de uma Ângela Maria, de uma Gal Costa, de um Pery Ribeiro (filho de Herivelto), de um João Gilberto, entre outros. Vários artistas de renome internacional também a integraram com grande sucesso nos seus próprios repertórios, tais como Glória Lasso, Nana Mouskouri, Xiomara Alfaro (que ajudou a divulgá-la no nosso país), Violeta Villa, Sarita Montiel, Marie Myriam, os ‘Scorpion’, Ricky King, e os fabulosos Andrea Bocelli e Luciano Pavarotti.
Note-se, no entanto, que nem tudo foram rosas para esta deliciosa canção; já que, apesar do estrondoso êxito alcançado no Brasil, a sua proibição (por heresia, vejam só a estupidez !) chegou a ser solicitada por um influente eclesiástico local. Coisa que só não aconteceu, por (ao que se pretendeu) a melodia ter conquistado admiradores nos próprios serviços de censura brasileiros. Isto dito, aqui fica a letra :

«Ave Maria no Morro»

Barracão de zinco
Sem telhado, sem pintura
Lá no morro
Barracão é bangalô

Lá não existe
Felicidade de arranha-céu
Pois quem mora lá no morro
Já vive pertinho do céu

Tem alvorada, tem passarada
Ao alvorecer
Sinfonia de pardais
Anunciando o anoitecer

E o morro inteiro no fim do dia
Reza uma prece Ave Maria
E o morro inteiro no fim do dia
Reza uma prece Ave Maria

Ave Maria
Ave Maria
E quando o morro escurece
Elevo a Deus uma prece
Ave Maria.

(-Bonita, na sua singeleza, não é verdade ? A audição em português de «Ave Maria no Morro» é, naturalmente, indispensável; mas ouvir cantar –em língua italiana- esta imortal canção de Herivelto Martins pelos artistas Andrea Bocelli e Luciano Pavarotti é uma experiência inolvidável. Acreditem !).




ANDANÇAS & FOTOS

A primeira fotografia que hoje aqui coloco data de 1967 e representa o bloguista em Bruxelas junto ao Atomium, símbolo da Exposição Universal realizada 9 anos antes na capital da Bélgica. Que ricos tempos os desta estampa, em que, com apenas 22 de idade e sem crise à vista, tudo me parecia fácil, assim como para os jovens do meu tempo. Mas decorrido um ano, pumba ! lá surgiu o famoso Maio de 68, que eu -então residente em França- vivi intensamente (logo desde Abril) nos piquetes de greve e nas ruas das cidades, transformadas em singulares santuários da reivindicação operário-estudantil e, por vezes, em autênticos campos de batalha, onde se afrontavam os ‘laissés pour compte’ do capitalismo (moderado, apesar de tudo e se comparado ao capitalismo selvagem de hoje), contra um patronato e um poder político socialmente retrógrados, incapazes de satisfazer as justas esperanças daqueles que produziam riqueza e fazim mover o Mundo. Quando agora me confronto com os sucessores desses figurões, com aqueles que desencadearam uma crise com a dimensão e a gravidade da actual, que mergulhou na miséria e no desespero milhões e milhões de famílias, pergunto a mim próprio como é que o pessoal de hoje os tolera tão mansamente e não escavaca tudo, em manifestações de desagrado mais do que justificadas. Sobretudo, depois do representante dos grandes patrões portugueses ter tido o arrojo e a pouca vergonha de negar publicamente um aumento de 25 Euros mensais (uns míseros 83 cêntimos a mais por dia) aos trabalhadores mais desfavorecidos deste país; àqueles que -com o seu suor, com as suas lágrimas e com o seu sangue- oferecem a esses fariseus tudo aquilo que eles possuem : o dinheiro que esbanjam em automóveis de luxo, em jóias caríssimas, em mansões sumptuosas, em viajens de sonho. Coisas que, naturalmente, ninguém lhes inveja (fique descansado o 1º Ministro desta bananal república, desta democracia de carnaval), que tanto tem defendido e protegido (com o seu partido) uma casta na qual se confundem e alegremente convivem os homens da finança e os chicos-espertos da política politiqueira. Os escândalos que, com uma impressionante frequência vêm a público, aí estão para demonstrar o que afirmo e que, aliás, toda a gente sabe.
A segunda foto (que comentarei com menos palavreado e com menos revolta) representa o bloguista (no início dos anos 90) ao lado de um amigo, que vive em França desde os seus primeiros anos de adolescência. É o Rui, da Cova da Piedade, que aqui desfruta comigo (e com as esposas, ausentes do boneco) uns momentos de paz à beira das águas plácidas (e frias) do lago de Annecy. Esta cidade francesa da Alta Sabóia situa-se a escassa distância da Confederação Helvética e, graças ao seu ‘charme’ único, à sua beleza, vive essencialmente da indústria turística. Até porque se encontra nas imediações de algumas das mais reputadas e concorridas estações de esqui do sistema alpino. A propósito, um dos meus antepassados de nome Chambel, era (ao que parece) originário desta região, onde ainda hoje há muita gente com esse apelido; que deriva do vocábulo regionalista ‘chambe’, que significa cânhamo. Chambel quer dizer, literalmente, campo plantado de cânhamo.
A terceira e última foto (um postal) representa uma praça da cidade norueguesa de Fredrikstad (condado de Ostfold), que eu visitei várias vezes, aquando de uma estadia profissional na terra de santo Olavo. Fredrikstad é uma cidade (universitária) importante, cuja actividade industrial se centra no seu porto, situado no estuário do Glomma, o maior rio da Noruega. O que se enxerga na foto é parte do preservado núcleo histórico da cidade. O objecto que se vê em primeiro plano (cujo nome ignoro ou me esqueci) é o equivalente ao pelourinho das nossas cidades e vilas medievais. É um objecto de tortura, no qual se expunham (temporariamente) os condenados por delitos comuns ao olhar reprovador dos seus concidadãos. -Olha se a moda pegasse por cá, nos nossos dias, e se a lenta e branda (desculpai o eufemismo) justiça portuguesa deixasse de ser o que é e, repentinamente, amarrasse a objectos semelhantes todos os vigaristas e todos os gatunos deste país… Safa !